quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ele



Mesmo que não vejamos suas rugas, pintas, que não saibamos como dobra o cotovelo sobre a mesa farta, como olha para baixo antes de responder a uma pergunta, como os calos da mão roçam no cajado que o apóia e que, às vezes, enrosca no manto leve e o faz franzir a testa; mesmo que desconheçamos a forma com que coça a barba enquanto se espreguiça, seu choro e sotaque secos, suas cáries e o critério das suas decisões; mesmo que não sintamos o cheiro agridoce do seu bocejo ou a neutralidade do seu sovaco, que não ouçamos seu assovio de quem parece caminhar nas nuvens, que não reparemos nas variações tonais da sua voz e dos brancos e cinzas de seus cachos sobre os ombros; mesmo que nos esqueçamos de seu porte grave, da sua mente que é um mundo inteiro e da pupila dilatada dos seus olhos azuis; mesmo que nunca tenhamos visto marca de nascença, um registro de idade, o seu passaporte, e que a cor da sua pele denuncie poucas viagens; mesmo que apenas nos fins de tarde conheçamos melhor o seu humor e que o contorno da sua personalidade se perca sob o sol a pino; mesmo que nos fuja seu nome e presença ao enfrentarmos a distância da sua residência, que nos seja velada a sua origem, paradeiro e futuro, que não tenhamos pista de quase nada e ainda assim o consideremos, que ignoremos seus filhos em vez de a eles recorrermos em busca de informações mais precisas; mesmo que nos contentemos com a notícia de ser alguém poderoso e que sabe o que faz e mesmo que ser grande, pai, e brasileiro seja a única coisa da qual, de verdade, estejamos certos, ainda assim, teremos, sempre à mente, particulares ideias sobre Ele.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Paisagens Construídas - SESC Pinheiros









Video registro da execução do trabalho: http://vimeo.com/28832451.


Paisagens Construídas
Laura Gorski e Felipe Arruda

Inserido no projeto Desvios, de iniciativa do SESC Pinheiros, o projeto Paisagens Construídas, concebido por Laura Gorski, segue a proposta de intervenção artística nas paredes externas do edifício.

À esquerda de quem entra no prédio, o desenho de Laura Gorski propõe o deslocamento de paisagens de campos de cultivo para um contexto urbano; o ato de desenhar na parede é uma maneira de devolver essas imagens ao mundo sob uma nova relação contextual, trabalhando com variações de escala e inversões de ponto de vista.

A convite da artista, Felipe Arruda criou o texto que se vê à direita da entrada do prédio. Seu trabalho se utiliza de recursos poéticos para comentar o desenho criado por Laura Gorski e sugerir desdobramentos possíveis da obra, envolvendo o espectador e o ambiente ao seu redor.

O diálogo entre imagem e texto convida os passantes locais a observarem o espaço onde se encontram e formularem novas relações com ele e seus elementos.

Em exposição de 12/07 a 25/09/2011.
SESC Pinheiros: Rua Paes Leme, 195



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A música encontra a literatura - espetáculo CCJ



A convite do pianista Benjamim Taubkin, participei, junto com o escritor Lauro Henriques Jr., do espetáculo A música encontra a literatura, realizado em 14/11/2011 no Centro de Cultura Judaica, em São Paulo.

Contamos ainda com as presenças de Denis Duarte, nos efeitos sonoros e especialíssimos, e de Helio Ishii, no vídeo e projeções.

Li dois contos: Chuvisco e Carregadores de Piano, ambos publicados neste blog. Lauro leu textos de seu livro Fragmentos do Sol Chuvoso. Tivemos a grande honra de ter o som do piano do mestre Benjamim acompanhando nossas leituras.



quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sujeito provisório

Nasci sob a escolta de um genérico apelido. Vim sem sobrenome e sem o que vem antes dele. Emprestaram-me um acessório, um som postiço, que me protegesse de ser singular. Sobrou-me na hora só o tapinha e o rompimento do cordão; evitaram o registro da digital. Tenho certeza que berrei alto e clamei meu direito, mas a acústica da sala não era boa, minha voz não teve eco, e os doutores deram cabo do serviço para voltar ao almoço de família; querida me passa o frango, o sal, aquele tempero que eu gosto.

Assim fiquei sem uma graça, anônimo como os cotovelos. Hoje, seco no varal esperando que o sol me grife, oferte uma marca de nascença retroativa, e que a sombra do meu corpo no chão confirme minha presença sob o astro a pino. Falta-me a noção de mim mesmo, ou não me falta porque nunca a tive? Vocês aí, por favor, a primeira pedra atirem em mim, que eu agradeço.

Obrigado pela pedrada. Enfim eu tenho uma lesão, um dano, um edema, um motivo para dar entrada no hospital. O rasgo está feio, inchado, a testa comprometida, a mocinha da recepção me dá prioridade, boa noite senhor o seu erre gê, sim é esse aqui da foto, no verso tem meu pai, minha mãe, a assinatura de um delegado, e nove dígitos contando quem eu sou.

Já estou sendo operado e não posso falar. Mas acho que a mão dos doutores vai sendo corada pelo meu sangue e aposto, pelo pouco contraste com as luvas brancas, que devem estar notando a minha ausência. Doutores, eu quero que vocês abram a minha testa. E me contem depois o que viram; eu gostaria de algumas confirmações.

Operado, de avental branco no quarto, eu tomo um gravador de cima da mesinha ao lado da cama. Arrisco uma fala que diz pé, canela, ante coxa, umbigo, pinto. Continuo e quando chego à boca, calo. Não encontro um som que me faça. Meu bigode avança. E minha cabeça finalmente dói, talvez eu tenha sequelas, aguardo ansioso o meu prontuário, no cabeçalho virá o nome do paciente, substantivos que contem do meu estado, e pelo menos um adjetivo afirmando que a coisa é séria.

O gravador me intimida. Tenho receio que mesmo na fita muda, meus relatos dobrem de existência nessa outra dimensão. E a depender de qualquer sorte, se enrosquem no cassete com outras confidências, confundindo o passado dos fatos, e, portanto, desviando o prumo do que vem por aí. Acabariam as minhas chances. De acordar bocejando de chinelos e pegar a conta de luz na soleira da porta, o meu comprovante de existência. Mas essa realidade tem que ser negociada. Sou eu um caso de segunda chance? Afinal, qual é o almoxarifado que libera, o cartório que autoriza, as tais segundas chances? Nesse hospital, estou feliz. Sinto que, de alguma forma, a pedrada me fez bem.

Restaria então a mim ficar deitado nessa cama tola, minha testa até sangra doutor, mas é bem pouco, fique tranquilo, pode ir. Eu devolvo o gravador à mesinha, e observo na parede branca à minha frente dançarem todas as células do meu corpo. Elas vibram, elétricas, enquanto conversam sobre a minha pessoa. Ao mesmo tempo contente por elas, desconfio não me dizerem mais respeito. Até busco ali indícios do meu bafo matinal, das linhas da minha sola, do feltro do meu bigode, das razões do meu humor. Mas não acho. Elas respondem, em contrapartida, que gostariam que eu tivesse algo para chamar de supermeu; ou um estádio em minha homenagem.

Lembro que em casa se dividia afeto como quem parte uma jaca. Mas eu de boca mole, rosto doído, não consigo me reapresentar ao gravador e começar pelos meus desejos não cumpridos. Por isso, e sem disposição para novalginas, eu levanto desse leito com planos de deixar o hospital. Voltar a secar meu corpo sob o sol, pegar uma cor, uma praia, comprar um chinelo do mesmo número que calço. Trocar de curativo. Mas antes vou à janela e espio as empenas lá fora. Em um dos prédios, há um anúncio impresso em gigantografia, é uma oferta de viagens ao Caribe. Nessa imagem tem uma praia solar, um carro estacionado, dentro uma loira em risos, loira e abraçada a um homem de bigode, amor que lugar, que dia, que vontade de transar, eu olho bem esse marido, ele está de camisa branca, camisa branca impecável, e no bolso quadrado do lado esquerdo do seu peito, separadas por pequenos pontos, estão costuradas as minhas iniciais.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

EDITEMO-NOS






Notícia ruim, anúncio de pinga, óleo de fígado de tubarão, um pênis maior. Dizer que fiquei enfadado é pouco quando, nesta manhã, abri a janela.

Do computador, naturalmente. Pois mesmo o muro à frente de casa – descascando com o humor desidratado do meu vizinho – é uma edição mais confortante da realidade do que a espontânea e incontrolável oferta virtual. Algo para qual raramente geramos a demanda, mas que nos demanda, ocupando tempo e espaço em nossa janela mental. É assunto sabido.

Se a memória é uma ilha de edição, como sugeria o poeta Wally Salomão se referindo a vida já vivida, também a vida corrente, presente, e ainda aquela que desejamos e projetamos, todas elas são laboriosas e constantes edições. Viver é editar, assim como editar é morrer.

As janelas, físicas ou virtuais, são ícones clássicos da edição do mundo. Da mais uterina realidade somos expulsos por uma janela apertada, sufocante, e damos numa espécie de set de filmagem, de luzes e equipamentos, nosso pai escolhendo os melhores ângulos para o vídeo, e nós com as janelinhas oclusas, absorvendo flashes esparsos de milhares de novos assuntos não escolhidos, logo na primeira cena do roteiro.

Nas nossas viagens, de bumba até Osasco ou de jato ao Japão, deslocamento, percurso e paisagem são algo que conhecemos através de molduras; recortes que oferecem fragmentos ingênuos de uma dimensão astronomicamente mais ampla a mim, a você, ao astronauta em órbita da Terra.

São também sempre fruto de edição os conteúdos que orbitam à nossa volta. Somos educados pela eleição de valores dos nossos pais, pela abordagem relativa dos livros escolares, e formados pelas morais e maneiras adotadas pela nossa cultura, pelas informações às quais temos acesso, pelas notícias, anúncios, pelos óleos de fígado de tubarão, pelas promessas de um pênis maior. Assim como editados são nossos amigos e parentes, legitimados quando os aceitamos, ou não, nos convites das redes sociais. Quando casamos, fazemos quiçá nossa maior edição: a escolha de um entre os mais de seis bilhões de seres terrestres – o que, para alguns, se reprisa em (in?)consequentes edições.

Nesta emaranhada trajetória de permanente seleção, é difícil compreender a palavra realidade, algo formada pela sobreposição de infinitas possibilidades, sempre determinada individualmente. O que podemos, afinal, é aprender a exercitar bem o direito livre e democrático da escolha aliado à tentativa de estar sempre expandindo e desconstruindo os limites de nossas molduras. Com sorte, antes que cheguemos à edição final.

O que fiz, nesta manhã, enfadado e prestes a ser fuzilado por um pelotão de pop-ups, foi valer-me do meu direito democrático de aniquilá-los pontiagudamente com meu indicador-editor repousado sobre o mouse. E, aproveitando, ao mirar o muro descascado do vizinho, as lascas de tinta recortando a parede, abri um pouquinho mais a janela.

domingo, 5 de junho de 2011

Sobre a obra de Nuno Ramos, Sem título, da série Quadros, 2004





I


O artista a chama de Quadro, mas a escultura é um mastodonte, um monstruoso estandarte, uma acumulação de matéria vistosa. Parece ela a sustentar a parede branca por trás, parece ela a amparar o mundo em volta de si, e não o contrário. Tal impressão se dá pelo contraste de um objeto de tão grande porte, espontaneidade e imponência fixado a uma superfície neutra, imparcial, planejada, e que perto da obra é – no limite –, fraca.

Sua largura, de seis metros e sessenta e três centímetros, é mais que o dobro da altura, três metros e vinte e um centímetros, formando, assim, um retângulo horizontal. Sua profundidade, quando instalada na parede, é de dois metros e trinta e cinco centímetros, sendo este um dos aspectos que lhe dá ares de escultura.

Uma ampla chapa metálica serve de apoio para a fixação orquestrada de placas retorcidas de latão, cobre e alumínio, tiras de pelúcia e tecidos diversos (pano, feltro, estopa, algodão, nylon, lã), pedaços de espelhos, acrílicos, canos de aço, mangueiras plásticas, cordas, fitas, cintas, arames, cola, parafina, vaselina, tinta a óleo. O resultado é um volume intencionalmente irregular, de sucessivos acidentes topográficos, no qual os elementos – arredios a qualquer organização – se acotovelam em busca de espaço em turbulenta convivência, numa combinação viscosa, maçerada e não previsível, multicolorida pela infinidade de tons presentes (extensa paleta de cores quentes e frias, foscas e brilhantes), e cujas formas e texturas dariam conta das sensações táteis de uma vida.

A aderência de um elemento a outro e os demais processos de feitura da obra são frutos de uma cozinha de naipe industrial, oriundos de um espaço selvagem, longe das poltronas e chás da tarde de alguns ateliês. O volume é construído deitado no chão, aonde os distintos materiais vão sendo agrupados, amarrados, fundidos, encaixados (não sem alguma violência) numa tensa articulação. Ao mesmo tempo, é como se fossem concedidos, aos poucos, os braços e pernas de um gigante prestes a acordar. E de fato ele se ergue, em prontidão, pelo guindaste que iça a obra, cujas toneladas, na perspectiva da própria obra, parecem ignorar a si mesmas, como se a ela não pertencessem.

Este despertar é espalhafatoso. Basta uma lufada para trazer o cheiro agridoce da mistura preparada, do produto olfativo de uma combustão de elementos que nem a tabela periódica cogitaria. Algo que estende a presença do trabalho. E que, de alguma forma, dá a chance de identificar melhor a propriedade de cada elemento disposto, como se fosse possível não só revelar a sua face, mas a sua alma, e distinguir a mensagem individual, particular, como se nota cada tempero no meio de uma caldeirada.

Não sem companhia, essa presença olfativa é escoltada por outra, a do som. O silêncio ficou no lugar de origem, de onde toda matéria brotou. Agora, o trabalho inclui uma profusão de sirenes. Elas gritam. Não em prol ou contra nada, apenas a favor de si mesmas. São mais percussivas que melódicas. É a passagem de uma escola de samba. Sim, Quadro é obra carnavalesca. E se cada elemento emite um acorde distinto, espinhoso e texturizado, a possível transcrição daria uma partitura em braile.

Com tudo isso, o artista afirma e promove a matéria na tentativa de chegar ao seu máximo, mas sem querer domesticá-la completamente. Na medida em que permite que as propriedades da matéria se imponham, o artista é alguém cuja função é difícil precisar, talvez por que dele já não mais se precise. Volume, forma, cor, textura, cheiro e som acabam servindo como indícios do óbito do criador, e então se confirma a vida própria da obra. Ela passa a ganhar autonomia (em relação ao artista, à galeria, ao mundo), como se a obra finalizada já não se dissesse mais obra, ela é experiência e, no limite, um ser; e o ser, este mastodonte estandarte, já pode respirar sozinho.


I I


De noite, na galeria, quando já se fecharam as portas, talvez só o vigilante note o repique fino e baixo que escapa de um mastro de barco enfiado na placa metálica e revestido de lona plástica vermelha com jeito de embalagem. Um agogô soa grave ao percorrer o tubo da sinuosa mangueira até desaguar numa espécie de cilindro improvisado pela chapa de latão, o que pode fazer esse som ecoar, e que pode levar o vigilante a dormir. Talvez o som de uma cuíca o faça sonhar. E, portanto, ele não notaria o pó que cai de madrugada sobre o Quadro, lentamente e a cada dia, que é tão apenas a sobra da serragem que consomem os cupins bem acima, no teto. A serragem gruda minuciosamente à vaselina estanque de uma pequena ranhura - e a obra fica num impasse. Agradece pela matéria de nova natureza que lhe é acrescentada, nova potência, mas se lembra que é matéria desse mundo, e não do seu mundo, do qual provém. É risco de contaminação. Mas avalia. Já não apóia suas costas à parede atrás de si? Um naco de parafina não desgruda de si e cai no chão? Por fim, indiferente, respira pelas gases.

O que ninguém poderia supor, nem mesmo o vigilante se estivesse acordado, é que os cupins avançassem do teto para a parede e descessem para o Quadro, numa salivante marcha. Se a fruição em si já seria oportuna, o que dizer de sua digestão? Considerando a transposição das propriedades da obra, novos seres viriam reorganizar o mundo. Não mais o consumo insosso e restrito à madeira, à terra e aos livros, mas o apetite pelo concreto armado, pelo plástico, pelo azulejo, pelo estanho e pela carne. Na reprodução desembestada destes insetos, a inteligência coletiva de suas comunidades seria substituída por identidades individuais. Cupins com desejos tão singulares quanto os microscópicos traços que os diferem. Cada exemplar com sua própria ética, com suas preferências estéticas. Deglutiriam saborosamente o Quadro (reparem que o vigilante dorme ao som do repique, agogô e cuíca) começando pelos materiais mais brutos e precários, como o latão, para depois limpar o prato com as lonas e pelúcias de maior valor e gosto.

É possível que o vigilante pudesse ser o alvo seguinte, perdendo o boné, a bota, o uniforme e as entranhas num solene momento, mas já sem o som do repique, do agogô e da cuíca, o que seria uma pena. A continuidade do banquete nas dependências da galeria dependeria do repertório armazenado por cada cupim no consumo primeiro, do Quadro. Quais obras escolheriam?

Mundo afora, passariam gradualmente a redefinir a presença e a remodelar o contorno das coisas. Ou melhor, não haveria mais algo como uma coisa. Os cupins comeriam os dicionários e, além dos dicionários, as palavras, os sons, as placas de trânsito, os baralhos e as cartas de amor. Depois, os oceanos e os continentes. Tudo que é ou já foi atribuído, seduzido pela linguagem. Fariam questão. De fazer sobrar só a matéria virgem, mas o mundo não seria mais redondo, de água, de terra e mata, é claro. Talvez, ao fim, restasse apenas uma grande chapa, ampla e plana, cuja superfície apoiasse camadas e camadas de materiais díspares, uma espécie de espuma branca e espessa, uma espécie de lodo negro, uma espécie de lava rubra, e algo de fora, algo de impalpável, algo de inatingível, como um céu estrelado.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010




Efeito número 1

Um tanto de areia preta com água mexe e vira argila. Vira uma escultura, que é fotografada. A foto é impressa num papel de parede e este é colado num muro bem grande. O muro é marretado e demolido até restarem milhares de pequenos pedaços nos quais ainda se notam, em fragmentos, o papel de parede com a foto da escultura de argila. Esses milhares de pedaços são amontoados junto a um espelho e formam, por efeito, dois montes idênticos lado a lado. Esses dois montes são filmados em película durante cinco minutos. Essa película é cortada em vários pedaços que são pendurados num extenso varal.


5 minutos pendurados num varal.


Esse varal com essas películas é fotografado em preto e branco, à contra-luz, lembra as listras de uma zebra. Essa imagem é impressa num tecido branco, criando uma interessante estampa que vira um biquini. A modelo ganha o biquini do artista que criou a estampa. Ela é fotografada por uma revista de ti-ti-ti usando o biquini de estampa feito a partir da foto das películas que filmaram os montes de entulho com fragmentos do papel de parede impresso com a foto da escultura de argila. O ex-namorado da modelo está na praia lendo a revista de ti-ti-ti. Ele vê a ex-namorada-modelo na foto com o dito biquini. Ele arranca a página da revista, amassa até virar uma bolinha, cava um buraco na areia preta da praia. Passa uma onda.


Efeito número 2

Com as mãos em concha, a amiga cochicha no ouvido da amiga. Uma palavra escapa por entre os dedos, escorre pelo braço da menina, cai no chão do quintal e entra na terra pelas ranhuras do piso. Lá passa uma minhoca que, ups, engole a palavra e segue caminho em direção à horta da casa. A minhoca cavuca a terra e vai semeando a palavra junto ao pé de mandioca. O pai cava a mandioca, cozinha a mandioca, e como palavra não tem medo de fervura, resiste firme até seguir pro jantar da família. A família come aquela mandioca com aquela palavra junto e fica com essa palavra na cabeça toda hora, dia inteiro, mês todo. O pai resolve vender um fusca, põe anúncio no jornal e sem saber faz uso da tal da palavra. O futuro comprador do fusca recorta o anúncio do jornal e fica com aquela palavra no bolso enquanto vai pro bar. E toma cerveja com os amigos, e toma cachaça, e toma, e toma mais, e o porre tomou conta. Tira então o recorte do bolso e conta pros amigos do anúncio, mas a palavra sai torta perneta manca até a beira da estrada embriagada vai atravessar o asfalto tá quente pelando vai atravessar vem uma onomatopéia em alta velocidade brummmmm cuspida pelo fusca, a palavra ofusca.


Efeito número 3

Dois fuscas se chocaram. O que vinha mais rápido era de um verde opaco fruto de muitas tardes de sol chapando a lataria. Sol de Santos, podia-se ver pela placa que agora pendia sobre o capô do outro fusca, esse de cor rosa-choque, que descera a ladeira brecando em ziguezague. O fortíssimo impacto amalgamou os veículos de tal forma que a parte dianteira do fusca verde foi engolida pelo fusca rosa, sendo mastigada para o seu interior,  criando uma insólita noção de dentro e fora.  Após três capotadas, os dois automóveis imóveis escancaravam de barriga pra cima o avesso das latas, cuja ferrugem marrom completava o azul claro do céu no melhor clima retrô. Interessante notar que os pneus do fusca, difícil saber se do verde ou do rosa, estouraram e desmaiaram como massa de pão fervendo no asfalto, fumaça saindo, o céu queimado. As antenas dos carros voaram, mas permaneciam ao redor da cena equilibrando o tom prata presente também nos parachoques, que contorcidos, lembravam esculturas de Jonh Chamberlain. Poderia-se valer da poesia dizendo que foi um verdadeiro abraço de fuscas não fossem os pedaços de carne estilhaçados por toda a carcaça, que salteavam de vermelho negro aquela composição verde-rosa, comprometendo o que seria uma notável referência ao samba da Mangueira.

EFEITOS



Efeito número 4


Um adjetivo arrogante. Orgulhoso, atrevido, petulante. Um adjetivo sem dó, nem pudor. Adjetivo sem jeito e sem objetivo. Um parágrafo só desses adjetivos. Uma lauda, capítulo, uma obra completa, completíssima, completamente cheia de adjetivos. Uma biblioteca de adjetivos. Uma festa literária inteira, inédita, internacional, Inesquecível Festa Literária de Adjetivos. Depois um congresso. E uma lei pros adjetivos. Um vereador pros adjetivos. Uma passeata de adjetivos. Uma guerra. Adjetivos reféns, adjetivos mortos. Ressurreição de adjetivos. Daí uma igreja dos Adjetivos do Dia Seguinte. Um grande Deus adjetivo. Uma civilização adjetiva. Um continente adjetivo. Um hemisfério. Os dois. Um planeta adjetivo. Uma galáxia adjetiva. E então, um universo adjetivo. E aqui nos perguntaríamos: existem adjetivos em outros planetas? E enviaríamos um adjetivo para o espaço. O adjetivo voltaria sem notícia de adjetivos alienígenas. Diríamos portanto: o adjetivo é incompetente. E continuaríamos nossas pesquisas.


Efeito número 5
prólogo para o Efeito número 6

No dia que o mundo acabou, as ideias ficaram soltas no ar. As fórmulas, os insights, e as piadas todas juntas. Mesmo as ideias esquecidas, as fracas, as sem pé nem cabeça. É certo que algumas ideias esqueciam de si mesmas e outras se confundiam com exemplares similares, pois talvez toda ideia seja uma outra fantasiada. Mas houve uma ideia central, da qual nem se tinha notícia antes do mundo acabar, e que mudou o rumo de tudo, ou de nada, que existia: a ideia de que as ideias tem código genético. Com o passar do tempo, as ideias cresceram, ganharam de volta o acento, criaram membros, orgãos, e se reproduziram. Passaram a dar a luz a novas ideias, excitantes como um raio ou comuns como algodão. Grupos de ideias formaram ideologias. Ideias visuais viraram ideogramas. Ideias populares eram tidas como ideais. Maduras, as ideias botaram o pé no chão. E ainda que nenhuma ideia se lembrasse mais de como era o mundo antes dele acabar, aos poucos as ideias sobre o mundo começaram a surgir. Foi como se a ideia mais genial de todos os tempos tivesse nascido. Uma ideia foi contando pra outra, que espalhou pras demais, e logo todas as ideias concordaram que seria ótimo se existisse um mundo.


Efeito número 6

No mundo das ideias, aderência pode ser uma freiada de carro no asfalto, distante de uma pena, que flutua, como um satélite. Na falta de hierarquia nesse reino, absurdos e maravilhas fazem festa. Quando a coerência encontra a incoerência, é faísca, veneno e briga de razão. Se calha da sorte estar por perto, pode dar em parto, e pode até virar conceito. Que se espalha no espaço, onde pulsam os cometas, fogos de artifício e pontos de exclamação. Abajures, celulares e vagalumes iluminam as dúvidas que saem em busca de letreiros de neon piscando bar. Opiniões controversas, rinocerontes e a paz dividem a história. O enredo é um emaranhado de teias. No mundo das ideias, trabalho é um dedo enrugado que também chama criança na piscina, os holofotes e os elefantes se aproximam, e carnaval fora de época é o mesmo que pipoca. Transversal e perpendicular são variações do mesmo tema, e não se importam com a reta, nem com a referência. A trajetória de uma palavra é sempre incerta, disserta a metáfora. Enquanto busca ideias para dizer tubarão, pavio e jaboticaba.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A vida após o muro


Texto vencedor do concurso literário da Revista Piauí
Edição número 33


De nada adiantara a tranca de aço maciço chumbada na entrada principal. A Casa de Assistência Jacarandá perdera seu mais antigo e astuto hóspede, num descuido daqueles dignos de quem tem os dois olhos no peixe e se esquece do gato. Foi numa manhã ensolarada que Zé Gardênio escapuliu por um túnel cavado na terra às próprias mãos e à custa das dezenas de horas solitárias dedicadas à faina na horta comunitária, da qual, já há mais de 20 anos, fora delegado o manda-chuva.

O bedel da Casa cansara de ouvir o bate-papo interminável que Zé Gardênio travava com pés de alface, escarola e outras verduras – incluindo seu mais fiel companheiro, um pé de repolho – e largava da guarda para enrolar na paquera a mocinha da limpeza. Era o suficiente. Pazinha nas mãos, o designado esquizofrênico socialmente inapto (conforme seu prontuário), ganhava valiosos centímetros a cada dia, se aproximando pouco a pouco ao Berlinzão, como os débeis chamavam carinhosamente o muro dos fundos do sanatório, onde ficava a horta.

Chegado o grande dia, Zé Gardênio despediu-se das alfaces, escarolas e de seu amigo de fé, o pé de repolho. Piscou para o sol que assolava a careca, e, deixando escorrer um fio de baba no seu macacão amarelo escolhido para a fuga, rememorou com pesar os anos que passara no sanatório. Não mais seria um doido varrido. Decidido, aprumou-se como se fora debutar em um novo hemisfério. Confirmou a ausência de vigilância por perto – teria a mocinha da limpeza cedido às investidas do bedel? –, afastou a lona que escondia a entrada do túnel e, num rebento, atirou-se com volúpia buraco adentro, engatinhando determinado rumo ao mundo dos normais.

Sete minutos mais tarde, Zé Gardênio ganhara a liberdade. O buraco de saída do túnel dava para uma movimentada avenida que margeava o sanatório. Deu umas palmadas em si, como que para sacudir a poeira do passado, e achou-se um homem são, pronto para restabelecer contato com seus iguais. Mas quando ergueu a cabeça e fitou os olhos na paisagem à frente, deparou-se com a complexidade de um mundo o qual desconhecia. Viadutos, esquinas, arranha-céus. Camadas sobrepostas de chão, nenhum horizonte. A cidade desbotada, intransponível, indecifrável. Viu-se só, paralisado, e tinha a testa franzida em ziguezague. Sentiu-se espremido em formas geométricas como se cada linha deste cenário fosse um limite para sua existência e a ausência delas, uma ameaça. Aflito, refletiu consigo: não posso mover meus passos por esse atroz labirinto.

Sete minutos mais tarde, Zé Gardênio valia-se do ombro amigo do pé de repolho para desabafar a experiência da vida após o muro. O aterrado hortaliço, curioso pelo relato que ouvia, indagou com máximo interesse: “Mas há lá fora outros iguais a mim?”.

Deixando escorrer mais um fio de baba pelo macacão amarelo, Zé Gardênio respondeu com uma certeza abissal:

“Não. Lá fora é tudo uma grande, vasta e interminável plantação de abobrinhas.”

Ó


Baseado no título do livro de Numo Ramos: Ó
ganhador sétima edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura

Ó

De ode. Às possibilidades de reinvenção da roda, do mundo, ou, ao menos, do nosso olhar. Ó do espanto: o desvelo do inédito. A ponta do fio do novelo. De onde tudo começou, se transformou, e absorvemos hoje como verdadeiro. A lã na qual nos refugiamos do frio.

Forma diminutiva do verbo olhar na 3ª pessoa do imperativo afirmativo (olha você), esse Ó não é o da admiração (Óóó...). E sim do pasmo, do queixo caído. Essa contração onomatopéica – e gutural – é uma interjeição que parece guardar em si uma ironia invencível: uma breve letra, da forma circular comum, sem pretensão contorcionista ou vaidade, potencializa e ilumina gratuitamente, pela força do seu acento, e seu caráter íntegro e afirmativo, tudo aquilo a que se refere ou designa. Como um espelhinho que reflete o sol numa parede. E faz a conjunção entre o verbo e objeto chegar em tom singelo. Como uma obra que comunica muito com pouco. Um artista tímido. O bolo delicioso da vovó que diz: não foi nada.

Esse mesmo Ó ainda vem alertar atenção e cuidado. Não é tão simples como você está pensando. Viver é arriscado, ou anestésico, depende da elasticidade das suas pálpebras. E traz em seu som uma informalidade de tom pessoal, como dois amigos no boteco discutindo futebol. Só que o jogo é mais denso e movediço. Por isso Ó, a partir da forma circular, dá a impressão de circunscrever um mundo, do qual um observador (o acento) se desgarrou a tempo, salvou-se, e agora observa esse mundo de fora, comentando-o.

Quando usado como expressão (é o ó) aponta algo incabível, inomeável, e que carrega certa conotação de desordem. Posto assim sozinho, Ó é a um só tempo aquele espelinho que ilumina, e a própria escuridão. Então Ó talvez traga o recado da ilusão que criamos, e à qual nos confundimos para sobreviver num mundo contraditório, vesgo, e sem respostas. Esse nó, que só parece desatar com a luz de um farol.


domingo, 7 de novembro de 2010

Notas sobre Istambul



9 NOTAS SOBRE ISTAMBUL


1. É irresistível ceder à comparação da paisagem urbana de Istambul com a grafia de seu nome. Marcante, a primeira imagem da cidade para quem chega pelo Bósforo é um plano de altura uniforme, com certo desenho montanhoso, perfurado com finas elevações em forma de torre: são as minaretes das mesquitas - que soam cinco vezes ao dia - com suas vozes convocando para a reza. Istambul: é como se a palavra estivesse em busca de tocar o céu.

2. Sem acréscimo, a paisagem que acolhe o visitante é sem dúvida uma das mais belas do mundo. Somada ainda à sua qualidade única de mediar Europa e Ásia, fato que desde vários séculos a tornou palco fundamental da história da humanidade. Assim, um passeio pelo canal é ter de cada lado um hemisfério, geográfico e cerebral, natural e cultural, guerra e paz, onde a luz nasce, se põe e ilumina claramente e diferentemente, cada qual.

3. Passo adentro, Istambul é terra firme. Mas ainda há as pontes. Todos os dias, todas as horas, centenas de homens, e somente homens, pescam nas pontes sobre as águas - e as águas-vivas, sim, milhares delas - do Bósforo. Passam horas debruçados nos corrimões, costas para as pessoas e a cidade, varas em riste, olhos ao mar, e parece não importar o saldo do anzol. Mas sim fisgar um sinal de esperança. É no aguardo de uma surpresa divina que estão. E a partir dessa cena é possível entender a hulzu, a melancolia de Istambul.

4. A fisionomia do turco reforça a hulzu, pois é a sua estampa máxima. Pessoas com densidade de povo antigo. Diferente dos brasileiros, americanos, canadenses, australianos, povos jovens. É muita partilha, batalha, troca de poder, cultura e resolução. Um ar desiludido, cansado de crer, mas impelido a fazê-lo. As pessoas parecem precisar de um tempo para deixar todo o outro tempo que veio atrás, pois em parte ainda vivem nele. O fim do Império Otomano e o começo da República foi o último dos rompimentos, que com ele levaram diversas das suas tradições. Há pessimismo. Por isso quando estão felizes, parece ser apesar de algo.

5. Em Istambul, as ruínas não são conservadas e reapresentadas como patrimônio histórico a exemplo das cidades européias ocidentais. Elas apenas estão lá. Isso dá à cidade a sensação do passado ainda estar presente, mas não só isso: traz a sensação de feridas expostas, como se, ao não legitimá-las devidamente, elas residissem numa sub-memória, ora reforçando um trauma antigo, ora resolvendo-o.

6. É pena que a cultura islâmica tenha ficado tão estigmatizada – negativamente – nos tempos de hoje. Os muçulmanos de Istambul guardam lindos rituais, mesquitas, uma cultura de alegria, comércio, cultura e muita música. Há poucas coisas mais sublimes do que ver um dervixe girar.

7. Nas mesquitas, as câmeras fotográficas nao tem paz. Na terra dos incríveis doces árabes e delicioso café, o Starbucks está sempre cheio. Os turcos fazem grande esforço para serem europeus ocidentais. E aí tudo se parece. A globalização pasteuriza. Mas com paladar atento e um pouco de lupa, é sempre possível sentir o gosto da nata.

8. Em turco peruca é “peruk”, cigarro é “sigara”, táxi é “taksi”, polícia é “polis”, tráfico é “trafic” e lavabo é “lavabo”. Além disso, escuto no turco um sotaque português. Mas não importa. Mesmo assim, turco ainda é russo pra mim. Só quando um búlgaro fala inglês para ser entendido aqui, só aí é que dá uma certa confiança.

9. O nariz do turco não mente.


sábado, 18 de setembro de 2010

A NOIVA DO CONDUTOR - Ilustrações de Laura Gorski




Texto sobre o trabalho de Laura Gorski para o livro A NOIVA DO CONDUTOR, lançado pela editora Terceiro Nome, baseado na opereta escrita por Noel Rosa em 1935.


A NOIVA DO CONDUTOR, de Noel Rosa

Ilustrações de Laura Gorski


As ilustrações de Laura Gorski para “A Noiva do Condutor” foram concebidas pela artista em meio à dezenas de horas de audição da única gravação existente desta opereta, realizada em 1985, pelo selo Eldorado, e que tem como destaque a voz de Marília Pêra, como Helena, e de Grande Otelo, no papel de seu pai. Audição que, a cada vez experimentada, fez emergir as camadas sutis que esta obra guarda em seu enredo, poesia, e sonoridade.

Tal qual à obra de Noel Rosa, o trabalho de Laura Gorski também faz emergir camadas, as matizes de um tempo no qual viveu o autor: quando ainda havia namoros de portão, serenatas ao pé da janela, e quando mesmo a mentira – sustentada na opereta pelo condutor – trazia consigo uma inegável simpatia.

As nuances desse tempo foram ambientadas por Laura Gorski após pesquisas sobre a paisagem do Rio de Janeiro da década de 30. Com algumas referências em mãos, a artista criou as personagens e os cenários que compõem a opereta a partir de seu trabalho – já habitual – com desenho e recorte. Durante seu processo de criação, o bisturi foi recortando lentamente, sobre as folhas brancas ou pretas, o desenho previamente traçado, como que abrindo espaços no papel para que as imagens da história de Noel pudessem se revelar.

Essa espécie de arqueologia poética da artista obedeceu, em seu próprio ritmo de execução, ao mesmo compasso lento, cadencioso, do período retratado. O tempo dos bondes, das ruas de paralelepípedos, da fumaça de cachimbo que sobe ao sabor da emoção de cada momento.

Ao conceber a caracterização das personagens, na qual o que predomina é o uso do desenho, as singularidades propostas pela artista trazem o mesmo clima da época, por meio de uma leveza paciente, quase ingênua, e do bom humor que se faz presente nas feições de Helena, Joaquim, Doutor Henrique e Jota Barbosa, no gestual e vestimentas criadas, e na cor levemente amarelada oferecida a todos eles, como forma de alçar as personagens ao plano de destaque proposto pela opereta.

O aspecto gráfico, de linhas suaves, espaços vazios, e de contraste entre poucas cores nos desenhos de Laura Gorski, remetem ainda à simplicidade não só da vida desta década de 30, mas também da linguagem própria do texto de Noel para tratar do cotidiano, de forma simples, direta, com bom humor e ironia. Neste sentido, texto e imagem resultam num feliz casamento, como o de Helena e Joaquim ao final da história. No entanto, pode-se ver no livro, que ambos nunca deixam de flertar um com o outro, ora se mirando, ora se comentando, ora se despedindo; como em um namoro de portão.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Carregadores de Piano



                              

Conto inspirado na série de ilustrações de Manu Maltez
"Carregadores de Piano"


São homens notáveis. Caminham pelo centro da cidade, pelas calçadas, eles, os carregadores de piano. Foi do alto de uma antena que eu vi pela primeira vez. Ainda era madrugada, nas horas que me mandam pra esses consertos; caiu uma ferramenta, agachei pra pegar e nisso estava lá, atravessando a praça, despercebido pelos mendigos que dormiam nos bancos.

Desde então sempre que estou a arrumar antenas, esqueço do céu e olho pra baixo. Até prefiro essas horas tímidas da noite, quando é mais fácil vê-los. Os carregadores de piano andam sozinhos, usam a mesma roupa negra, esfiapada, e os sapatos muito mais largos que os sorrisos, que escoam pelos bueiros por onde passam.

São estivadores da poesia. Nada os silencia, nem os calos. Eles evitam os palpites das pessoas, os olhares de interrogação, as conversas fiadas. São avessos aos atos premeditados, a apatia rasteira do dia-a-dia. Interessa-lhes o susto, a nota, a partitura do acaso. Quando é tempo de pausa, estacionam o piano em local ventilado, se metem dentro junto às cordas, aconchegam a corcunda, e dormem. Os ombros só são vistos quando tocam. É a mesma hora em que fazem as pessoas chorarem.

Consertar antenas é um trabalho de risco. Estar mais perto de Deus só te faz se sentir menor. E tem os raios. Que podem te partir. Sem dúvida mais leve que carregar pianos, mas ainda assim. Daí cresceu a simpatia em mim. Passei a acompanhá-los, segui-los aonde vão, nas mãos o meu caderninho, catando as cenas que eles deixavam pra trás.

Anotei três:

I

O homem anda. Nas costas, o piano. De longe vem, o trem. No relógio da sincronicidade, duas linhas. Uma vertical, do trem, que vem; outra horizontal, do homem, que vai. Um ângulo reto, de certo encontro. A cada ajeitada do piano nas costas, toca uma nota. O homem não dá ré.


Uma nota.


Barulho do trem, barulho do trem, barulho do trem, barulho do trem, barulho do trem.


Outra nota.


Barulho do homem.


Que vai.


II


O homem anda. Nas costas, o piano. O centro da cidade é grande, e fundo. Ele escolhe o prédio mais alto. No elevador, ajeita o piano sem deixá-lo tocar o chão. Chega no último terraço: claro feito talco, arejado, palco. Respira; pois após muitos andares, o piano pesa uma gravidade. Sobre a cidade, o céu é platéia. Aproxima-se da beira. E começa.


III

O homem anda. Nas costas, o piano. No pé a ferida só aumenta. É o atrito da areia da praia: volumosa. A cada passo do mar sai uma nota, deserta. E convida. Os peixes e até as sereias se juntam para a seresta. Vem uma onda grande; a nota é maior. O piano responde. Nas costas da onda. À custa do homem.


Aconteceu ontem. O dia estava quase amanhecendo quando já fazia cinco horas de uma rara sessão: ele tocara toda a noite, em cima de uma laje, embaixo de chuvisco, enquanto eu espiava por detrás duns caixotes. Nesse meu quieto esconderijo, pensei que faltava ar, mas era o efeito da música.

Não sei dizer sobre aquelas composições. Sei que me levaram tão longe que eu não saberia mais voltar sozinho. O piano era uma larga escadaria, em espiral, que parecia saudar estrelas. Eu viajava mais alto que minhas antenas, sem sinal de mim mesmo. Sustenido, e desnudo.

Ainda era escuro quando vi um vulto se aproximar. Na minha hipnose, assustei com a silhueta que chegava perto. Cada vez maior. Absorto, eu ouvia um trecho do piano que se repetia, se repetia, se repetia em transe na minha mente. Quem vinha era negro e forte. Saquei logo a chave de boca. Afastei num chute o caixote. Faltava um passo pro sujeito. Meti-lhe a chave na testa. Era um homem. Caiu da laje.

O piano parou de tocar. E não tinha mais pianista. O primeiro raio de luz fez uma nuvem se mexer e todo resto minguar. Nenhum ruído sequer. Lá embaixo, dava pra ver a corcunda desmanchada entre os fiapos da roupa negra. Os sapatos largos virados pro chão, e uma lembrança fina escorrendo no ralo. Ontem, eu matei um carregador de piano.

Na mesma manhã, procuro a antena mais alta. Subo. Saco meu caderno. Olho para as ruas, não há ninguém. E também não há consertos. Não há o que anotar. Jogo minhas ferramentas fora. O silêncio é mais duro aqui de cima.

São cinco as trombetas que soam. Quando morre um carregador de piano, dezenas deles se juntam ao redor de uma grande cova. E tocam. A cerimônia evoca todas as notas que aquele tocou em vida. Todos os andares, os cenários, os sorrisos encontrados nos bueiros. Recolhe-se todo o choro que as pessoas choraram ouvindo sua música, e o choro que agora choram por sua morte. Deixa-se cair a tarde e deixa-se também cair a chuva, para que ao fim desse dia, chovam lágrimas de acorde.


quarta-feira, 3 de março de 2010

Chuvisco


Conto premiado no CONCURSO NACIONAL DA CEPE
http://www.cepe.com.br/editora_regulamentoconcurso.php

(Companhia Editora de Pernambuco)
nov / 2010

Revisto-me naquela foto. Aquele dia. Mas não me acho. Chuvisco. Penso nele. Desdobro o coração e redescubro num vinco a trilha da nossa amizade. Calibre de antigamente. Mesmo tempo em que a verdade ainda dava em pé, e que as cores do casarão-fazenda cochichavam histórias do lugar. Familiazona; cesta farta de tudo que eu sonhava pra mim; mas vida é viagem que é ida sem vinda e eu acrescido de passado descarto adulterar infância. Mesmo que me sinta caroço. Hoje olhar eu posso.

Bisbilhotava por cima do muro. Via filme. Uma penca de primos trapeziava em galhos e eu seguia sombra-meninos e sombra-meninas e sombra-árvores dançarem juntos na terra do chão. Inveja é palavra adulta mas criança na sensação. No meu lado da vida tinha mata, mas tão sóbria que assustava raios de sol. Eu me sentia escuro.

Aquela família vivia sempre pra fora. Por isso eu sabia de cor o carrossel do dia-a-dia. Cedo despertar; o avô horta, o pai cidade; a mãe cozinha; os primos liberdade. De tudo eles. Quanto mais na roça arruaça armavam, mais pra casa confusão traziam. E eu gostava de ver. Depois do almoço de cheiro bom, a tarde calava em sépia, a mãe caçava piolhos nos mais miúdos, o pai voltava com seu amor devagar. De longe, o avô, fumo pitado, trazia o cavalo chamado Saudade.

Das cenas que acompanhava, tinha uma predileta que imantava minha atenção. Ria do magricela de suspensórios que bailava sozinho. Não raro, liderava uma confederação de fedelhos em aventuras galácticas; mas quando só, mergulhava em si até sumir de onde eu o via. A um só tempo, ambas ocorrências faziam mágica na minha imaginação e me congelavam estátua. De olhos debruçados sobre o muro, eu assistia.

Aconteceu num dia em que a cama me dispensou do sono mais cedo. E a saída foi espreguiçar a madrugada no quintal com direito a espiada no vizinho. Nessa manhazinha, o magricela orquestrava astros com uma vareta, desenhando planetas no terreno a minha frente. Eu suspeitava que seus suspensórios enganchavam no céu e que flutuar para ele era coisa possível. De algum lugar, também me via vendo-o, de muitoemcima talvez, imaginando se ele me percebia, se tudo era real, ou se eu era o diretor dum filme só meu.

E foi quando eu viajava em imagens que a ficção tomou gole de realidade.

O menino largou a vareta e me fitou minutos alargados por um sorriso.

Ele se aproximou.


- Vem cá.


II
Durou um ano-luz o pulo que dei para o outro lado do mundo. Na descida, meu joelho ralou no tijolo: pedra, pele, sangue; estilingue ardente que me acordou aos nove anos de idade. Eu sequer havia aterrissado, e disparamos os dois em pique de corrida lado a lado, o vento fazia um corredor entre nós, enquanto ele me dizia que seu nome era Chuvisco.

Pouco mais, a manhã ia desvelando o roteiro que eu já conhecia. A horta esperando o avô, a cidade o pai, a cozinha a mãe, a liberdade todos os primos com quem vivi aquele dia de janeiro.

Eis que brincamos até tapar os buracos da vontade. Pelejas, mangas, riachos, rachas de charrete e broncas da mãe, igualzinho como eu pintava. Sem esquecer das jornadas épicas que Chuvisco oferecia de lambuja. Juntos inventamos batalhas de alvorada e ao entardecer já havíamos conquistado o mundo. Somados os primos, éramos uma só pessoa de 16 pernas; uma toada de pés descalços que a terra se acostumou mal de tanto beijo. Nossas risadas aguavam o ar e não tinha mais saber se estávamos correndo, nadando, ou voando. Até o tempo parou pra olhar: foi como se eu tivesse vivido uma saga de anos a fio costurada em uma sunga de pano. Naquele dia eu era um peixe do cardume. E me senti aceso.


III
Nesse mesmo dia é que foi feita a foto. Conforme costume, um profissional vinha da cidade visitando fazenda, mais fazenda, fazendo retratos de famílias (na minha não passou). Assim reuniram-se todos sob a orientação do fotógrafo.

E a cena grafou meus olhos num piscar estanque.

Primeiro plano: a horda de primos. Chuvisco na ponta esquerda, a molecada desengonçando na seqüência, e os piolhentos terminando a fila na direita. Lembro destes dois últimos, arredios, por causa das cacholas nuas.

Segundo plano: a prima mais velha, a mãe ao centro segurando a miúda, o pai ainda na cidade carece de presença na composição geral.

Terceiro plano: o avô e o cavalo Saudade. O homem usava chapéu diário, que dava sempre conforto de abrigo à família, como se protegesse a todos pela sombra das abas. Queimava também um cigarro de palha, cuja fumaça expirada eram as palavras que ele não tinha.

Quarto plano: o muro.

Quinto plano: os fundos de minha casa.

(...)

Inventario a figura completa. Reviso todos os planos. Tento me encontrar na foto.

Estou presente?

Busco em cada canto com lupa, passo os olhos em cada pessoa, não me vejo. Mas o retrato foi tirado naquele dia, naquele mesmo. Quando investigo melhor, acho uma mancha escura em cima do muro, junto às árvores da minha casa. Era o posto exato de onde eu espiava aquela família. Faço esforço. Coloco a imagem contra luz, vasculho o arquivo mental, quero clarear a área, as idéias, tento me revelar, mas se me revelar ali é que me perco de vez. Então a tudo faltaria sentido.

Trago refúgio na sensação: o registro físico daquele dia no corpo. Basta sentir as pernas seguindo Chuvisco, a água do riacho, o rangido da charrete, a vibração da sonora bronca da mãe. Está tudo aqui. Eu juro.

Pois é que lá eu vi o amor a olho nu.

Só que agora não me acredito, não me consumo, e rôo as unhas como se estivesse apagando memórias.

A imagem perde a cor, esqueço os nomes que sabia de cor, me sinto novamente em cima do muro.

Eu invisível tento ver a foto.

Mas a lembrança dispara sentada no cavalo.

Enxada


De golpe em golpe, a enxada cavuca a terra. A ponta metálica risca a face da mãe de tudo; bole, alisa, e avança. Suingue contínuo em vai-e-vem, roça cada grão como lambida, deixa a terra bêbada de morrer de prazer. Enxada viril. Gretas, fendas, trincheiras, não faz distinção; come geral. Cozinha todos os buracos. Extremidade longa, ferro, e um corpo de pau que serve pra pegar. Quem pega é o lavrador. Maneja a ferramenta com suor. E com louvor. A cidade está longe e nesse descampado só a enxada e ele. Agarra a bicha pelas ancas, dá ordens, faz dela escrava. E cava nela. Mãos de couro, de touro, manipulam, animam e desorientam o instrumento. Que gosta; e continua enxotando a terra, penetrando, quanto mais fundo, melhor.


Marisa


Maravilhosa. Foi só o que consegui dizer quando conheci Marisa. Um vestido amarelo colado no corpo, um sorriso largo igual às coxas, e bastou. Mexeu comigo de vez. Daí em diante, foi como se a cada dia eu descobrisse um continente. E o desbravasse feito um bandeirante. Era uma aventura por dia. Um martini na mão, e Marisa sorria. Viagens não planejadas, conversas de madrugada, e da cama até a varanda durávamos horas. À noite, não sei da lua, mas a taça estava sempre cheia. Café da manhã com champagne, ela pedia. Inebriado, nunca me abri tanto. Até que em pouco tempo minha casa ganhou Marisa, e se encheu de malas, cores e opiniões. Relampejou no meu gramado. De repente, de presente, uma mulher completa. Marisa, Marisa, Marisa até o final, vibrei numa noite. Na mesma em que ela me deixou.

Agora faço esforço e quase lembro. Ela tem um perfume que eu não sei o nome. Mas que ficou pairando na casa vazia. Golpe surpresa, falta baixa. Cadela. Que falta me faz. Vago pelos cômodos, zanzo pra lá e pra cá aos quilómetros, vejo minhas esperanças penduradas nos cabides, e o resto é tudo branco, eco e metálico. Não se despediu, foi embora sem ao menos uma saideira. No canto da sala, eu e os farrapos das mentiras que ela contava. Recolho meu coração em parcelas e vou até o mais fundo que posso, ensaiando alguma explicação. Enquanto isso, Marisa, sei lá aonde, acontece.

Vou ao banheiro. A fisgada na barriga já é conhecida das semanas que não saio de casa. Fico mirando os azulejos, investigando se aquelas tramas respondem algum mistério. Conto os pingos d’água que escorrem da torneira, e me sinto sozinho no silêncio entre eles. Daí remexo o cesto ao lado, desses que fingem revistas lidas, e busco algo relaxante pros olhos. É quando me espanto. Descubro um peixe intruso nesse aquário. Entre as revistas, sem saber se recuo ou comemoro, acho o diário de Marisa.

É evidente que abro na hora e o devoro. Anotações, um comentário – que eu discordo – sobre nossa primeira transa, e, de resto, recados pra si mesma, o esperado. Mas se os meses com Marisa me ensinaram alguma coisa, é que ela deixa tudo pro final. Assim avanço os dedos na última página, machuco o único objeto, além do meu coração, que me liga a essa mulher. E lá está, naquela letra garranchuda dela, um parágrafo derradeiro, indício confessionário, dessa biscate fugitiva:

Aquário

Saturno fertiliza sua verve independente e você hoje é mais. A estadia do sol em libra te liberta para novas aventuras com alguém especial. Deixe o bom senso em casa e vá debutar com a vida! É impossível ter o mar, mas você pode fisgar alguns peixinhos!


No rodapé, uma flecha em caneta bic aponta um nome que não é o meu: Samuel.

Puta que pariu. Eu devia saber: as aparências ensinam. Um caso a parte corria por baixo, como um lençol freático, e eu pastava amoroso, como se nada.

Imediatamente risco o nome. E arrumo um espaço na mesma caderneta pra desabafar. Antes lembro das garrafas de champagne esquecidas na adega e me aprumo pra cozinha pegar uma. Sento à mesa que já foi palco pra aquela atriz, meretriz, não sei mais, saco a rolha, a caneta, e talho o diário assim:

Vagabunda.

Deslancho outros elogios merecidos, desço a mão sem dó, escrevo, escrevo, escrevo; toca a campanhia.

Ouço o chinchalhar das chaves na fechadura, a maçaneta gira, a porta abre, um salto passeia pelo chão de taco da sala, e num repente uma brisa me faz chegar o cheiro daquele perfume que agora lembro o nome. Marisa está na porta da cozinha, olhando pra mim, e pra caneta, que rola no chão.

Eu paralisado.

- Me serve uma taça?


Domingo


Antes de abrir os olhos, quando não é mais sono mas também não é vigília, já sei se a solidão pousou em mim. Até esboço um sorriso de canto enquanto levanto, ensaio alegria no meu espreguiço, mas o fato é que já estou tomado. Aquela cinza manta me breca. E o dia difícil começa pela porta.

Arrisco os amigos que posso. No primeiro ouvido ouço aquele tun, tun, tun, telesp informa, este número de telefone não existe. No seguinte é então, então, então, é que hoje, e o resto eu já sei.

Saio pra rua. Passa um tempo. Vou almoçar. Mas antes volto pra casa, como que para me recarregar de mim mesmo, tomar-me um pouco de minha companhia, ou dar a última chance do telefone tocar.

Não toca. Eu tomo o automóvel, sigo para o boteco donde sempre tem aquela refeição que me enche o bucho de afeto. São abobrinhas, são refogadas, gosto do feijão junto da farofa, justo aquela farofa, que me lembra a vovó, e como tudo isso por baixo dum grande ovo estalado que cobre até a vagem e o rabanete.

Entre uma garfada e outra olho ao redor. Se vejo alguém conhecido, fico indisposto por estar só. Exposto à minha condição. Se não encontro pessoa familiar, me sinto avulso, suspenso, e sem contexto. Coisa que demais detesto.

Deixo o boteco segurando um chocolate. É que o açúcar anima, dizem. Parto com o carro sem destino, são tantas ruas, será que tem algum puteiro aberto?

Procuro aquele fulero que me enche o pau de afeto. Lá elas sabem pegar. Largo o carro com os pneus beijando a calçada, é proibido estacionar, mas hoje é domingo e quem se importa. Dou bom dia boa tarde à Gisleine, abajour de veludo, sofá de couro, um drink aguado e tenho três opções no cardápio que já conheço: Lu, Mari e Loreane. Pego essa última; odeio puta com nome curto; desconfio. Subo pro quarto.

Ela me tira toda a saudade. Gozo três vezes, coisa que lá nem é permitido. É que Loreane me entende. Mais do que minha terapeuta. A cueca e a calça estão penduradas num gancho, a camisa jogada num canto, e eu levanto da cama para ir ao banheiro.

Lá tem um espelho que me mostra pelado, e minha cara já parece alguém de quem me lembro.

Atrás de mim há um outro espelho, o que faz com que imagens de mim mesmo sejam refletidas ao infinito. Um de mim atrás de um de mim, atrás de um milhão de eus mesmos. A cada movimento, todos exemplares me acompanham em sincronia. Um balé dentro to túnel.

Eis que um destes em reprise me convida: entre cá conosco. É verdade? A coragem rebola um tanto nessa hora, mas algo do familiar desse sujeito me desperta. Um passo a frente, o reflexo antes parede é agora luz e invertido então eu vejo o banheiro, lá fora. Uma fila de réplicas do que sou eu me acompanha nas minhas costas. Enfim unido aos iguais.

Em silêncio, tudo, até pensamentos. No assoalho de lajotas do chão gelado, meus sapatos descansam em companhia, enquanto Loreane, calada, afunda os lábios na cama.


Palitos de Mutuzú


Na mão esquerda dobrada em concha, como quem um segredo numa gruta agasalha, Mutuzú carregava a pequena caixa de fósforos. Sabia neles sozinho dos jeitos de ver os destinos, enquanto desconfiavam os vizinhos que o que levava era droga, briga ou granada. Disso era nada, pois os palitos o eram oráculos. E quando os jogava em oração, despertava na mão os tentáculos que regem a vida. Assim desde pequeno.

Foi numa preta noite de sereno, frio de burro, que Mutuzú se descobriu profeta. Pelo menos de minuto, não profeta de ano, década, destino longo. Avesso ao escuro que era, o menino miúdo saiu do quarto com medo da noite pra cozinha grande buscar luz. Naquele tempo dele e naquele lugar, luz era igual a fogo, e nada mais.

E achou a caixa de fósforos. Mas foi porque a derrubou no chão batido, barulho, e esparramados os palitos agachou pra pegar. Acendeu um para iluminar o chão, sentiu nos joelhos o gelar dos ossos, quase queimou os dedos, mas com os olhos viu sombras. Os fósforos unidos faziam uma trama, desenhos. Mutuzú fitou cuidadoso: eram códigos que contavam uma estória. Até menos. Anunciavam breve fato, momento, coisa de incidência. O daqui a pouco estava ali.

terça-feira, 2 de março de 2010

Espelho


Logo pela manhã namoro a foto que vi no jornal, um economista desses super-heróis, terno azul passadinho, gravata combinando, resolve dilemas mundiais em apenas duas aspas. Saio de casa, dou com o vizinho. Ele é o cara; tem um jardim de grama raspadinha, graças a seu tríceps exibido que manipula firme o guidão do cortador. Mal passa o calor do momento e, basta ligar notícia no carro, a voz do repórter me invade até a embreagem e no ato viajo à Formentera, aquela ilha na Espanha onde sempre quis fazer amor. Benzadeus. Azar de mim é na repartição onde trabalho, onde vez ou outra o office-boy me copia pelo olhar na sala do xérox. E não é que eu enrubesço? Em contrapartida, já revidei debruçando charme no meu chefe enquanto esclarecia um projeto. Outro deleite é na hora do almoço, quando me apresso para pegar o elevador lotado. Lá meus pensamentos vão mais longe do que os cafundós onde mora o ascensorista - e quanto mais paradas melhor. Sequer durante a refeição me furto em olhar por debaixo das mesas, simulando recolher um guardanapo caído, enquanto miro com admiração algumas paisagens. Retorno ao serviço e a tarde é uma sucessão de suspiros lancinantes; cada vulto que sinto passar é a silhueta de uma nova fantasia. Mesmo contra minha vontade, aos poucos o sol vai minguando e com ele os meus consolos. Bate a depressão e não raro combato a fossa dando uma olhadinha no economista que carrego no bolso. Enfim, eis que se faz a hora de voltar para o lar. Percurso sofrido, já trocaram o locutor da rádio, minha ilha virou noite, e o vizinho só aparece mais tarde. Vou comendo as cutículas dos dedos, e me conforto pensando no jantar. Quando chego em casa, vou pro quarto, tiro a roupa, me olho no espelho, e assisto minha intenção. A Lurdes me pergunta como foi meu dia, e eu respondo que precisamos conversar.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

No quintal de casa


no quintal de casa
eu quero um silêncio de deserto
um aconchego de floresta
uma vida de praia

eu quero água de geleira
pedra de rio
poço de cachoeira

quero aranhas
fazendo teias em arbustos
araras ninhos
em laranjeiras

quero ar de tranqüilidade
clima de alegria
tempo de felicidade

pros hóspedes e residentes:
sol, chuva
uma ducha, e uma rede

no quintal de casa eu quero minino e minina
fazendo arruaça e bagunça
quero brinquedo, brincadeira,
esguicho e lambança

quero uma mão pra arrumar as plantas
e um pulguento
pra desarrumar
enquanto brinca com as crianças

quero esconderijos
passagens profundas
castelo de areia
casa na árvore
e túnel secreto;
quero monstro do lago
saindo da cozinha
pro quintal aberto

no quintal de casa
tem que ter flor com cheiro
e um abacateiro
pra gente ficar embaixo
cantando Gil
ou pra fazer sombra
pro sanfoneiro

ou pode ser mangueira
pra gente lembrar do Rio
ou pra ficar só na lezeira
encostado na tora
falando besteira
jogando conversa fora

o quintal de casa pode ser do tamanho da Via Láctea,
de um pastinho de vaca
ou duma poça de leite;
desde que dê pra tomar
aquele cafezinho

simples com roupa no varal
ou chique como o Taj Mahal
nesse quintal tem que ter caça ao tesouro
e aurora boreal
tem que ter por do sol
e nascente d’água
tem que ter canto de dormir
tem que ter conto de fada;
tem que ter tempo
pra não fazer nada

se for daqueles antigos, que tem até rosa,
no quintal de casa vai sempre ter amigos, risada e prosa

mas se for desses mais de hoje, quase sem chão,
não tem problema não,
a gente faz que tudo pode
coloca a mininada toda, os bicho, os parente, chama toda a cidade,
faz um alarde

o quintal de casa vai ter como o mezanino
o céu
como porão
a terra
e de vista, quem sabe,
o mar

os metros quadrados serão redondos
as quinas ovais
e os rodapés,
descalços

no quintal de casa nunca vai ter
frescura
mas sempre vai ter
cerimônia
seja festa anual, ritual, carnaval,
ou fogueira
e todo 24 de junho
vai ter São João,
mesmo que seja segunda-feira

o quintal de casa já existe,
falta só comprá o terreno
e jogá fora logo a porteira!


sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Desafios da cultura no Brasil


Em 2002, o Sebrae encomendou ao sociólogo italiano Dommenico Di Masi um estudo sobre qual seria o principal produto e diferencial competitivo econômico do Brasil. A resposta é uma palavrinha simples e muito usada e, no entanto, de grande complexidade e pouca compreensão: cultura. Mais especificamente, Di Masi apontou a música como mais valioso “produto”, carregado de inventividade e diferenciação, para a exportação brasileira.

Esta conclusão convida à reflexão sobre os desafios de trabalhar com a cultura no Brasil. Sem aprofundar ou lançar julgamento sobre o estudo, mas com foco em sua afirmação final, é possível extrair a pergunta: Visto que a diversidade cultural brasileira é o maior patrimônio deste país, tanto no seu sentido fundamental (da liberdade de ser e se expressar) como possibilidade de desenvolvimento econômico, quais são os principais elementos que impedem uma atuação que garanta a integridade e o sucesso destes dois aspectos?

Quiçá o primeiro deles seja a própria compreensão do termo. Entre um cardápio de definições, é preferível ficar com nenhuma e pensar no sentido de que cultura é ser e estar no mundo. Esta idéia evidentemente leva a um amplo entendimento das relações, valores, convenções e criações humanas, e é exatamente esta a compreensão que garante uma sociedade onde cultura é interesse público, onde cultura é um processo de formação de indivíduos livres.

A visão, ainda presente por parte de algumas empresas, de que cultura é só um bom negócio, tem reduzido seu “papel” de forma prejudicial para o desenvolvimento social. Esta visão é estimulada pela criação de leis de incentivo fiscal, como a Lei Rouanet, e pela conseqüente formação de uma cultura empresarial que vê no investimento cultural privado apenas uma possibilidade de retorno de imagem, de relacionamento, do alcance de objetivos organizacionais. Atrelado a isto, há a ausência e a ineficácia de políticas públicas para a produção, preservação, difusão e promoção das manifestações culturais. O Estado está se ausentando de seu papel e passando o bastão para o mundo corporativo. Movimento que se aprofunda com o tempo e se torna mais penoso de ser revertido uma vez que todo o mercado da produção cultural se configura em torno desta lógica.

Falando em mercado, temos aí mais um desafio. A falta de profissionalização dos agentes culturais hoje é, apesar de menor comparada há uma década atrás, ainda bastante evidente. Foi apenas recentemente que instituições com experiência adquirida pela prática de produção e gestão cultural começaram a sistematizar e repassar estes conhecimentos a estudantes e profissionais recém-ingressos ao mercado. Ainda sobre este processo, é importante ressaltar uma tendência de “ensino” que privilegia o aspecto ferramental em detrimento do sentido ético, da compreensão filosófica, do que é cultura.

Os desafios compartilham de uma mesma raiz – a do sentido - e se desdobram em diferentes problemáticas no mundo real. Uma dinâmica cultural saudável para o país, seria, então, aquela onde produtores, empresas, instituições e poder público compartilham de uma mesma, lúcida e ampla visão sobre cultura. Onde o estado reassuma seu papel e invista em ações de desenvolvimento cultural e social. Onde empresas entendam que são dependentes e interelacionadas a estes processos e são em si mesmas um fenômeno cultural. Onde produtores garantam a integridade de suas iniciativas e as executem com qualidade. Onde todos os indivíduos tenham a liberdade de serem artistas na medida em que criam o mundo onde desejam habitar.


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