Mesmo que não
vejamos suas rugas, pintas, que não saibamos como dobra o cotovelo sobre a mesa
farta, como olha para baixo antes de responder a uma pergunta, como os calos da
mão roçam no cajado que o apóia e que, às vezes, enrosca no manto leve e o faz
franzir a testa; mesmo que desconheçamos a forma com que coça a barba enquanto
se espreguiça, seu choro e sotaque secos, suas cáries e o critério das suas
decisões; mesmo que não sintamos o cheiro agridoce do seu bocejo ou a
neutralidade do seu sovaco, que não ouçamos seu assovio de quem parece caminhar
nas nuvens, que não reparemos nas variações tonais da sua voz e dos brancos e
cinzas de seus cachos sobre os ombros; mesmo que nos esqueçamos de seu porte
grave, da sua mente que é um mundo inteiro e da pupila dilatada dos seus olhos
azuis; mesmo que nunca tenhamos visto marca de nascença, um registro de idade,
o seu passaporte, e que a cor da sua pele denuncie poucas viagens; mesmo que
apenas nos fins de tarde conheçamos melhor o seu humor e que o contorno da sua
personalidade se perca sob o sol a pino; mesmo que nos fuja seu nome e
presença ao enfrentarmos a distância da sua residência, que nos seja velada a
sua origem, paradeiro e futuro, que não tenhamos pista de quase nada e ainda
assim o consideremos, que ignoremos seus filhos em vez de a eles recorrermos em
busca de informações mais precisas; mesmo que nos contentemos com a notícia de ser
alguém poderoso e que sabe o que faz e mesmo que ser grande, pai, e brasileiro
seja a única coisa da qual, de verdade, estejamos certos, ainda assim, teremos,
sempre à mente, particulares ideias sobre Ele.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
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