quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sujeito provisório

Nasci sob a escolta de um genérico apelido. Vim sem sobrenome e sem o que vem antes dele. Emprestaram-me um acessório, um som postiço, que me protegesse de ser singular. Sobrou-me na hora só o tapinha e o rompimento do cordão; evitaram o registro da digital. Tenho certeza que berrei alto e clamei meu direito, mas a acústica da sala não era boa, minha voz não teve eco, e os doutores deram cabo do serviço para voltar ao almoço de família; querida me passa o frango, o sal, aquele tempero que eu gosto.

Assim fiquei sem uma graça, anônimo como os cotovelos. Hoje, seco no varal esperando que o sol me grife, oferte uma marca de nascença retroativa, e que a sombra do meu corpo no chão confirme minha presença sob o astro a pino. Falta-me a noção de mim mesmo, ou não me falta porque nunca a tive? Vocês aí, por favor, a primeira pedra atirem em mim, que eu agradeço.

Obrigado pela pedrada. Enfim eu tenho uma lesão, um dano, um edema, um motivo para dar entrada no hospital. O rasgo está feio, inchado, a testa comprometida, a mocinha da recepção me dá prioridade, boa noite senhor o seu erre gê, sim é esse aqui da foto, no verso tem meu pai, minha mãe, a assinatura de um delegado, e nove dígitos contando quem eu sou.

Já estou sendo operado e não posso falar. Mas acho que a mão dos doutores vai sendo corada pelo meu sangue e aposto, pelo pouco contraste com as luvas brancas, que devem estar notando a minha ausência. Doutores, eu quero que vocês abram a minha testa. E me contem depois o que viram; eu gostaria de algumas confirmações.

Operado, de avental branco no quarto, eu tomo um gravador de cima da mesinha ao lado da cama. Arrisco uma fala que diz pé, canela, ante coxa, umbigo, pinto. Continuo e quando chego à boca, calo. Não encontro um som que me faça. Meu bigode avança. E minha cabeça finalmente dói, talvez eu tenha sequelas, aguardo ansioso o meu prontuário, no cabeçalho virá o nome do paciente, substantivos que contem do meu estado, e pelo menos um adjetivo afirmando que a coisa é séria.

O gravador me intimida. Tenho receio que mesmo na fita muda, meus relatos dobrem de existência nessa outra dimensão. E a depender de qualquer sorte, se enrosquem no cassete com outras confidências, confundindo o passado dos fatos, e, portanto, desviando o prumo do que vem por aí. Acabariam as minhas chances. De acordar bocejando de chinelos e pegar a conta de luz na soleira da porta, o meu comprovante de existência. Mas essa realidade tem que ser negociada. Sou eu um caso de segunda chance? Afinal, qual é o almoxarifado que libera, o cartório que autoriza, as tais segundas chances? Nesse hospital, estou feliz. Sinto que, de alguma forma, a pedrada me fez bem.

Restaria então a mim ficar deitado nessa cama tola, minha testa até sangra doutor, mas é bem pouco, fique tranquilo, pode ir. Eu devolvo o gravador à mesinha, e observo na parede branca à minha frente dançarem todas as células do meu corpo. Elas vibram, elétricas, enquanto conversam sobre a minha pessoa. Ao mesmo tempo contente por elas, desconfio não me dizerem mais respeito. Até busco ali indícios do meu bafo matinal, das linhas da minha sola, do feltro do meu bigode, das razões do meu humor. Mas não acho. Elas respondem, em contrapartida, que gostariam que eu tivesse algo para chamar de supermeu; ou um estádio em minha homenagem.

Lembro que em casa se dividia afeto como quem parte uma jaca. Mas eu de boca mole, rosto doído, não consigo me reapresentar ao gravador e começar pelos meus desejos não cumpridos. Por isso, e sem disposição para novalginas, eu levanto desse leito com planos de deixar o hospital. Voltar a secar meu corpo sob o sol, pegar uma cor, uma praia, comprar um chinelo do mesmo número que calço. Trocar de curativo. Mas antes vou à janela e espio as empenas lá fora. Em um dos prédios, há um anúncio impresso em gigantografia, é uma oferta de viagens ao Caribe. Nessa imagem tem uma praia solar, um carro estacionado, dentro uma loira em risos, loira e abraçada a um homem de bigode, amor que lugar, que dia, que vontade de transar, eu olho bem esse marido, ele está de camisa branca, camisa branca impecável, e no bolso quadrado do lado esquerdo do seu peito, separadas por pequenos pontos, estão costuradas as minhas iniciais.


2 comentários:

arxvis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
arxvis disse...

texto lindo e intenso!

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