quarta-feira, 3 de março de 2010

Enxada


De golpe em golpe, a enxada cavuca a terra. A ponta metálica risca a face da mãe de tudo; bole, alisa, e avança. Suingue contínuo em vai-e-vem, roça cada grão como lambida, deixa a terra bêbada de morrer de prazer. Enxada viril. Gretas, fendas, trincheiras, não faz distinção; come geral. Cozinha todos os buracos. Extremidade longa, ferro, e um corpo de pau que serve pra pegar. Quem pega é o lavrador. Maneja a ferramenta com suor. E com louvor. A cidade está longe e nesse descampado só a enxada e ele. Agarra a bicha pelas ancas, dá ordens, faz dela escrava. E cava nela. Mãos de couro, de touro, manipulam, animam e desorientam o instrumento. Que gosta; e continua enxotando a terra, penetrando, quanto mais fundo, melhor.


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