quarta-feira, 3 de março de 2010
Domingo
Antes de abrir os olhos, quando não é mais sono mas também não é vigília, já sei se a solidão pousou em mim. Até esboço um sorriso de canto enquanto levanto, ensaio alegria no meu espreguiço, mas o fato é que já estou tomado. Aquela cinza manta me breca. E o dia difícil começa pela porta.
Arrisco os amigos que posso. No primeiro ouvido ouço aquele tun, tun, tun, telesp informa, este número de telefone não existe. No seguinte é então, então, então, é que hoje, e o resto eu já sei.
Saio pra rua. Passa um tempo. Vou almoçar. Mas antes volto pra casa, como que para me recarregar de mim mesmo, tomar-me um pouco de minha companhia, ou dar a última chance do telefone tocar.
Não toca. Eu tomo o automóvel, sigo para o boteco donde sempre tem aquela refeição que me enche o bucho de afeto. São abobrinhas, são refogadas, gosto do feijão junto da farofa, justo aquela farofa, que me lembra a vovó, e como tudo isso por baixo dum grande ovo estalado que cobre até a vagem e o rabanete.
Entre uma garfada e outra olho ao redor. Se vejo alguém conhecido, fico indisposto por estar só. Exposto à minha condição. Se não encontro pessoa familiar, me sinto avulso, suspenso, e sem contexto. Coisa que demais detesto.
Deixo o boteco segurando um chocolate. É que o açúcar anima, dizem. Parto com o carro sem destino, são tantas ruas, será que tem algum puteiro aberto?
Procuro aquele fulero que me enche o pau de afeto. Lá elas sabem pegar. Largo o carro com os pneus beijando a calçada, é proibido estacionar, mas hoje é domingo e quem se importa. Dou bom dia boa tarde à Gisleine, abajour de veludo, sofá de couro, um drink aguado e tenho três opções no cardápio que já conheço: Lu, Mari e Loreane. Pego essa última; odeio puta com nome curto; desconfio. Subo pro quarto.
Ela me tira toda a saudade. Gozo três vezes, coisa que lá nem é permitido. É que Loreane me entende. Mais do que minha terapeuta. A cueca e a calça estão penduradas num gancho, a camisa jogada num canto, e eu levanto da cama para ir ao banheiro.
Lá tem um espelho que me mostra pelado, e minha cara já parece alguém de quem me lembro.
Atrás de mim há um outro espelho, o que faz com que imagens de mim mesmo sejam refletidas ao infinito. Um de mim atrás de um de mim, atrás de um milhão de eus mesmos. A cada movimento, todos exemplares me acompanham em sincronia. Um balé dentro to túnel.
Eis que um destes em reprise me convida: entre cá conosco. É verdade? A coragem rebola um tanto nessa hora, mas algo do familiar desse sujeito me desperta. Um passo a frente, o reflexo antes parede é agora luz e invertido então eu vejo o banheiro, lá fora. Uma fila de réplicas do que sou eu me acompanha nas minhas costas. Enfim unido aos iguais.
Em silêncio, tudo, até pensamentos. No assoalho de lajotas do chão gelado, meus sapatos descansam em companhia, enquanto Loreane, calada, afunda os lábios na cama.
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